4x12: "KADDISH" (ORAÇÃO PARA UM MORTO)


Os amigos e a família de Issac Luria se reúnem em um cemitério no Brooklyn para lhe prestar a última homenagem. Issac era judeu e foi brutalmente assassinado por três jovens anti-semitas. Entre o grupo está Ariel Luria e seu pai, Jacob Weiss. Quando a noite cai, uma figura sombria entra no cemitério e modela um homem na lama.

Mulder e Scully investigam a morte de Isaac Luria. Ele vivia em uma vizinhança com uma história de tensão racial e foi morto severamente dentro de sua própria loja. A policia descartou a possibilidade de roubo, pois nada foi levado. Eles recuperam uma fita de vigilância da loja no videocassete de um jovem de 16 anos, Tony Oliver, um dos que participaram do assassinato. Oliver foi estrangulado por um assaltante desconhecido. A maior intriga de Mulder é a descoberta das impressões digitais de Issac Luria em Oliver.

Weiss lhe mostra um folheto anti-semita deixado em sua porta pela manhã. Mulder diz a Scully que quem imprimiu os folhetos provavelmente sabe quem matou Isaac. Os agentes entrevistam Brunjes Curto, que possui uma loja de fotocópias do outro lado da rua da loja de Isaac. Quando os agentes mostram fotografias para Brunjes de Banks e Macguire (os adolescentes suspeitos de assassinar Isaac), ele reivindica que nunca os viu. Sem que os agentes saibam, Banks escuta a conversa por uma câmera de vigilância. Scully diz a Brunjes que há suspeitas de que Isaac tenha voltado da sepultura para vingar seu assassinato.

Assustados, Banks e Macguire desenterram o caixão de Isaac. Enquanto isso, Macguire caminha para o carro para pegar algumas ferramentas. Banks abre o caixão e descobre o corpo de Issac dentro. Depois, Banks acha o corpo de Macguire saindo de um monte barro.

Os agentes são chamados à cena do crime. Mulder descobre um pequeno livro de couro entre os pertences de Isaac. Mas quando ele toca o livro, ele se incendeia. Os agentes entrevistam Kenneth Ungar, um estudioso judaica. Unger explica a Mulder que o que ele achou é um livro de misticismo judeu. Ele insiste que o livro nunca deveria ter sido enterrado com o corpo. Ungar nota um nome gravado no couro: Jacob Weiss.

Ariel diz aos agentes que embora ela e o marido terem recebido a licença de casamento antes do assassinato, a cerimônia do matrimônio nunca aconteceu. Os agentes localizam Weiss no sótão de uma sinagoga. Ele descobrem o corpo de Banks pendurado em uma viga de madeira. Weiss é preso e acusado pelos assassinatos. Ele admite ambos assassinatos, mas Mulder acredita que alguém - ou algo - estava no sótão com ele.

Unger conta para Mulder sobre o Golem, uma criatura dos textos místicos. Ele explica como antigos cabalistas acreditavam que uma pessoa pudesse criar uma criatura viva feita de terra. Uma única palavra em hebraico, "emet", é escrita na parte de trás da mão do Golem. Para destruir um Golem, explica Unger, a primeira letra "e" deve ser apagada.

Brunjes é achado morto. Quando os agentes examinam a fita de vigilância descobrem um Golem, com as mesmas características físicas de Isaac Luria, que é o responsável pela morte. Weiss volta a sinagoga depois de fugir da prisão. Lá ele descobre Ariel se preparando para sua cerimônia de casamento. Quando Weiss tenta parar sua filha, o Golem o ataca. Os agentes salvam Weiss - Scully o socorre enquanto Mulder procura por Ariel. O Golem ataca Mulder, empurrando-o para o lado quando ele tentar afastar a criatura, mas Ariel intercede. Quando a cerimônia continua, o Golem coloca um anel do dedo de Ariel. Ariel então expressa seu amor por Isaac, apaga a letra "e" da mão do Golem. A criatura se esmigalha.

 

Bastidores

 

Com uma integração quase interminável entre o desenvolvimento dos personagens, o comentário social e o sobrenatural, Oração Para um Morto é considerado um dos melhores episódios não mitológicos do quarto ano de produção da série. E isso apesar do fato de a premissa principal do episódio ter ficado jogada no chão da sala dos roteiristas durante anos.

- Provavelmente todo roteirista judeu que passou por aqui já sugeriu um episódio sobre o Golem - diz o produtor executivo Howard Gordon, que finalmente recebeu a luz verde no seu quarto e último ano de trabalho na série. - A chave para fazer com que o Golem se levantasse - explica Gordon - foi vincular o monstro com o triste relacionamento entre Ariel e seu falecido marido. No final, ficamos sabendo que não foi uma coisa criada por vingança, no estilo de "olho por olho", que é um desejo de milhões de judeus que sofreram a perseguição, mas uma criação feita por amor.

Para servir como contraste temático, Gordon aumentou um pouco o elemento do anti-semitismo e da intolerância, mas decidiu logo de início não mostrar a situação real do Brooklyn, que envolve as tensões algumas vezes violentas entre os judeus ortodoxos e seus vizinhos negros.

- Quando comecei a escrever o roteiro, os personagens anti-semitas eram negros

- explica ele. - Mas então percebi que o anti-semitismo negro é um tema bastante sutil e difícil, e não era o que eu queria na minha estrutura dramática. Eu precisava de outros elementos, personagens cujo preconceito fosse descontrolado e injustificável. Também era isso que o pessoal da Fox queria, e não lutei contra, porque achei que estavam certos.

Para pesquisar a condição atual da discriminação nos EUA, Gordon entrou em contato com a Liga Anti-Difamação, que lhe mandou a literatura de ódio que foi reproduzida com pequenas alterações, como se fosse produto da gráfica de Curt Brunjes. Um anel de casamento comunal do século XII foi usado por um rabino, sobrevivente do Holocausto, que casou duas das melhores amigas de Gordon no ano anterior.

Para o papel de Jacob Weiss, os produtores procuraram contratar Ron (Kaz) Liebman mas, como ele não estava disponível, o papel foi para David Groh, mais conhecido pelo papel de marido de Valerie Harper na série de comédia Rhoda. Groh causou uma pequena crise quando, por um pequeno problema de comunicação, ele raspou sua barba natural antes de partir para Vancouver.

Para o papel de Ariel Luria, os produtores escolheram Justine Miceli, a jovem atriz mais conhecida pelo papel da investigadora Adrianne Lesniak, entre 1994 e 1996, na série da ABC Nova York Contra o Crime. Miceli não é judia, mas uma de suas melhores amigas, que é judia, casou-se recentemente com um judeu ortodoxo.

- Cerca de um mês antes de ser contratada para o papel, estive na casa de minha amiga Holly em Buffalo, quando eles estavam comemorando o feriado judaico do Festival dos Tabernáculos - explica Miceli. - Visitamos a casa do rabino deles, e ele me disse: "Talvez algum dia você faça papel de judia. Eu vejo que tem alma para isso".

Para poder assimilar e mostrar a condição mental e o terrível sofrimento de Ariel, Justine usou a lembrança da morte de seu pai, que faleceu de câncer nos pulmões. Quando foi contratada para o papel, ligou para o rabino dos seus amigos, em Buffalo, que lhe ensinou a correta pronúncia em idioma hebraico das orações que ela devia fazer no episódio. Infelizmente, essa não foi a pronúncia absolutamente correta ensinada a ela por um especialista que contrataram em Vancouver.

- Foi meio confuso - diz Miceli. - As coisas foram mudando durante a semana, até que chegamos à versão que os produtores queriam. Ainda assim, muitos dos meus amigos judeus me disseram que meu sotaque não esteve tão ruim, para uma descendente de italianos.

Segundo o diretor Kim Manners, o episódio Oração Para um Morto contou com outro assessor técnico, um rabino hasidim que é um grande fã da série e que, por razões culturais e religiosas, não queria que fosse publicado o fato de ser apreciador do programa.

- Quando ligava para ele no Centro hasidim - diz Manners. - tinha de deixar um recado para o rabino Fulano de Tal, mas sem dizer que era do Arquivo X. Aí eu liguei várias vezes, até que alguém descobriu o que ele estava fazendo. Então, o rabino não quis nos ajudar mais.

Manners achou que Oração Para um Morto foi um episódio emocionante, uma grande história de amor. No entanto, as filmagens algumas vezes deram motivo à frustração. Pelos mesmos motivos que o rabino Fulano de Tal passou a se esconder da equipe, nenhuma das congregações de Vancouver queria permitir a filmagem em sua sinagoga. Como alternativa, foi alugada uma igreja protestante, e o cenógrafo Graeme Murray projetou um novo interior, que foi literalmente construído e preparado da noite para o dia. O mesmo aconteceu com dezenas de extras que foram usados nas cenas da sinagoga.

Durante uma expedição às lojas freqüentadas por membros da grande comunidade hasidim de Vancouver, a assistente de guarda-roupa Janice Swayze ficou tão encantada com os chapéus usados por alguns judeus ortodoxos, que comprou um para seu guarda-roupa pessoal.

Segundo o diretor de arte Gary Allen, uma interessante confusão ocorreu quando uma tradução hebraica dos Dez Mandamentos foi necessária para ser instalada sobre o falso altar da sinagoga. A tradutora oficial de hebraico utilizada pela série não estava presente. Ela tinha tirado o dia de folga, porque era feriado judaico.

- Tivemos de cuidar de tudo nós mesmos - disse Allen.

Ainda mais irritante, durante a filmagem das cenas de Mulder e Scully no cemitério, foi a absoluta recusa do místico livro judeu de incendiar-se na hora certa. E, quando finalmente esse problema foi resolvido, o livro levantou uma labareda tão alta que David Duchovny teve de jogar o livro ao chão e sair correndo do campo de alcance da câmera. Duchovny e Gillian Anderson passaram horas trabalhando com a segunda unidade de filmagem para terminar aquela breve cena. As aventuras que foram filmadas ali acabaram dando motivo a boas gargalhadas na festa de Natal organizada pelos produtores.

Mark Snow, que é judeu, diz que adorou compor vários solos de clarineta, violino e cello para a trilha sonora do episódio. Ele tomou emprestada a "Pequena Fuga em Si Menor" de Johann Sebastian Bach para uma das cenas da sinagoga. "A meta era culminar com alguma coisa entre uma banda de Klezmer e A Lista de Schindler", diz ele.

Embora este tivesse sido o décimo-segundo episódio filmado na quarta temporada, foi o décimo-quinto a ser levado ao ar. O motivo é que, quando O Homem do Câncer foi programado para a décima-segunda semana, um momento crucial após a final do campeonato de futebol americano, o Super Bowl, isso significava que o câncer de Scully seria revelado. Seu comportamento diferente em Nunca Mais e Lembranças Finais pode ser atribuído a este fato, de maneira que aqueles dois episódios tiveram de ser apresentados imediatamente depois.

Um letreiro colocado antes dos créditos de encerramento de Oração Para um Morto indica que o episódio foi dedicado a Lillian Katz. Ela era a avó materna de Howard Gordon, dona de casa, que morava em Nova York e que trabalhava como leitora de jornais para a Warner Brothers.

- Eu nunca a conheci, porque morreu com 43 anos de idade, antes de eu nascer - diz Gordon. - Mas minha mãe sempre diz que ela adorava o mundo do entretenimento, que lia todos os jornais especializados em cinema, e que sempre levava os filhos, minha mãe e meu tio ao cinema e à Broadway. Neste aspecto, nenhuma outra pessoa de minha família sequer se assemelha a ela. Minha mãe sempre me disse que é à minha avó que eu devo minha predisposição em relação a Hollywood. Na noite em que Oração Para um Morto foi ao ar, ela estaria completando 89 anos de idade.

* De acordo com diversas narrativas históricas, foi o mito do Golem que inspirou Mary Shelley quando ela escreveu Frankenstein.

* "Isaac Luria", a vítima de assassinato, recebeu o nome do famoso rabino Isaac Luria, considerado o pai do misticismo judaico, e um dos principais autores do corpo principal dos textos místicos conhecidos como A Cabala.

* "Kaddish" é uma oração judaica para os mortos, recitada diariamente no serviço religioso das sinagogas pelos parentes de pessoas falecidas.