4x13: "NEVER AGAIN" (NUNCA MAIS)


Ed Jerse, um simpático residente da Filadélfia, fica arrasado quando o juiz decreta condições severas sobre seu divórcio. Depois de tomar vários drinques em um bar próximo ao seu bairro, Ed entra em uma loja de tatuagens e seleciona uma tatuagem chamada Betty (na qual está impresso as palavras, "Nunca Mais"). No dia seguinte, no trabalho, Ed ouve uma voz feminina que se refere a ele como um "perdedor". Enfurecido, Ed provoca uma briga com algumas mulheres perto de seu cubículo, mas elas não entendem sua raiva. Seu chefe então lhe envia para casa.

Enquanto isso, Mulder diz para Scully que tirou uns dias de férias. Existe uma tensão entre os dois, e Mulder fala para sua parceira que seu caso precisa de atenção durante sua ausência. Scully recusa desperdiçar o seu tempo com um caso duvidoso que envolve um russo vivendo na Filadélfia, que Mulder acredita possuir informações valiosas sobre OVNIs. Scully diz a Mulder que ela sente como se tivesse perdido a visão de si, como se sua vida não fosse nada.

Agora em seu apartamento, Ed ouve a voz feminina o insultar. Não percebendo de onde a voz está vindo, ele pensa que é a vizinha do andar de baixo. A voz leva Ed eventualmente à beira da loucura. Ed arromba a porta do apartamento de sua vizinha e a ataca. Depois ele arrasta o corpo da mulher até o porão e o coloca em um incinerador.

A despeito de suas reservas, Scully decide observar o russo que Mulder mencionara. Ela descobre que o homem pratica extorsão e que suas atividades não possuem nenhuma relação com um Arquivo X. Scully segue o russo a uma loja de tatuagens próxima, onde ela inicia uma conversa com Ed (que estava pedindo ao artista que removesse sua tatuagem). Durante a conversa, uma inegável química se desenvolve entre os dois. Ed dá seu cartão à Scully e a convida para jantar. Mas ela educadamente recusa.

Depois de uma tensa conversa telefônica com Mulder, Scully aceita o convite de Ed. Scully fala para Ed que, na sua vida inteira, foi seguida pela figura do pai. Depois de consumir algumas bebidas, Scully e Ed voltam à loja de tatuagens onde Scully tatua em suas costas uma cobra comendo a própria cauda. Os dois voltam ao apartamento de Ed.. Notando o tempo ruim, Ed sugere que Scully passe a noite em seu apartamento. Scully nota a tatuagem de Ed gotejando sangue e, como médica, ajuda Ed a tirar a camisa. Um momento de intimidade acontece, mas antes que Ed possa agir seu sentimentos, ele ouvi gritos de Betty: "beije-a...e ela está morta".

Na manhã seguinte, Ed acorda no sofá. Ele deixa um bilhete para Scully dizendo que vai comprar o café da manhã. Depois de Ed sair, dois detetives acordam Scully. Eles contam que a moradora do andar de baixo desapareceu, e que um diferente tipo de sangue foi encontrado em seu apartamento. Os detetives contam para Scully que o sangue continha anormalidades químicas. Scully percebe que o sangue possui os mesmos ingredientes químicos que o artista de tatuagens usava para fazer a tinta de suas obras.

Quando Ed volta com o café da manhã, Scully lhe fala sobre a visita dos detetives. Ela também revela que a substância química encontrada no sangue é um alcalóide de ferrugem que pode produzir alucinações perigosas. Ed diz a Scully que ouvia a voz de Betty na sua cabeça insultando-o, controlando-o, mas quando Ed descobre que Scully é do FBI, tem um colapso. Ele ataca Scully, que cai inconsciente. Seguindo a voz de Betty, Ed arrasta o corpo de Scully até o incinerador. Scully recupera a consciência e diz a Ed que ele precisa se controlar. De repente, Ed junta suas forças e empurra sua mão para o incinerador queimando a tatuagem. Ele é levado para um Centro de Tratamento de Queimados.

Quando Mulder volta de férias, o clima entre ele e Scully permanece tenso, e Scully recorda seu parceiro que o mundo não gira ao seu redor e que ela pretende viver sua própria vida.

 

Bastidores

 

Este episódio, que apropriadamente numerado 4x13, sem dúvida é o mais comentado e mais idiossincrásico episódio do quarto ano de produção. Tanto os críticos como o público comentaram todas as regras relativas à televisão que foram violadas em Nunca Mais:

1. Os dois inseparáveis personagens principais afastados um do outro durante a maior parte do episódio;

2. Um final emocionante, em que nenhum dos dois correu em socorro do outro;

3. Uma cena na qual os dois heróis ficam sentados e discutem com a maior naturalidade os seus conflitos, tensões e desajustes pessoais, que baseiam e sustentam o relacionamento entre eles.

E, quando foi que uma heroína de um programa do horário nobre expôs tão abertamente, e até de modo vergonhoso, as suas necessidades básicas e suas neuroses?

- Achei que foi uma grande idéia - diz Gillian Anderson. - Pessoalmente eu estava passando por uma fase negra nessa época, e queria explorar o lado mais obscuro da personalidade de Scully. Por algum motivo Glen e Jim estavam sintonizados naquela mesma freqüência nessa semana. Depois, muita gente me disse que, naquele episódio, eu estava "diferente" de Scully, e que mostrei "meu alcance de interpretação". Eu disse a todos que achava que estavam errados. Nos programas de TV, o público só vê uma pequena parte da personalidade de alguém, porque é isso que o público deseja ver. É o normal, aquilo que podem esperar semana após semana. Mas todos nós temos uma personalidade com diversas facetas, todos temos os nossos próprios segredos. Temos partes de nós mesmos que não mostramos às outras pessoas. Uma pessoa pode ir para casa e sentir-se deprimida à noite, depois de sorrir o dia todo. Todos podemos ir para casa, encher a cara e vomitar a noite toda, e no dia seguinte ninguém sabe de nada. Não acho que esteja fora da personagem de Scully o que eu fiz neste episódio. A única coisa diferente é que o público não tinha visto isso antes.

Anderson admite que ficou meio desapontada pelo fato de ter sido trocada a data de apresentação dos episódios 4x13 e 4x14. Isso foi feito para mudar a data de apresentação de O Homem do Câncer, que apresenta Mulder e Scully como sempre estiveram na série, para o horário posterior à final do Campeonato de Futebol Americano.

- Se eu soubesse que Scully já sabia que estava com câncer, quando estava filmando Nunca Mais, teria desempenhado o papel de um modo diferente - diz ela. Anderson também diz que, por causa deste episódio, não se deve supor que ela e Scully tenham as mesmas necessidades e desejos. Por exemplo, ela achou meio difícil entender o fascínio erótico que Scully demonstra pelas tatuagens, que talvez seja a razão pela qual ela permitiu que a serpente fosse de fato tatuada nas suas costas durante a filmagem.

- Eles me disseram que demoraria muito, e que não seria uma atitude prática - explica Anderson, com um sorriso.

Na verdade as tatuagens vistas no episódio são decalques, desenhados por Kristina Lyne, do departamento de arte, e produzidos por uma empresa de Los Angeles chamada Real Creations. Depois, foram aplicadas à pele dos atores, retocadas e alteradas (por exemplo, quando a garota abre o outro olho) pela maquiadora Laverne Basham.

A mulher demoníaca que aparece no bíceps de Ed Jerse foi inspirada na obra de um antigo artista das tatuagens chamado "Brooklyn Joe" Lieber, que fazia seu trabalho na área da baía de São Francisco. Mas essa é uma outra história.

Dentre todas as músicas que Mark Snow compôs para este episódio, ele gostou mais dos selvagens e discordantes compassos que acompanham Ed Jerse, quando ele arrasta a desmaiada Scully escada abaixo.

- Havia uma certa qualidade de film noir neste episódio. De maneira que eu vi aí uma oportunidade para aplicar um gênero de música de jazz e bastante saxofone. Na cena de Jerse descendo a escada, eu vi uma estranha combinação de um ritmo de dança com estranhas amostras de rock alternativo. E o resultado foi muito bom.

As canções da Família Dó-Ré-Mi, que surgem do apartamento da infeliz Kaye Schilling, na verdade foram apresentadas por um grupo que imita a Família Dó-Ré-Mi.

Mas Jodie Foster, que fez a voz da garota da tatuagem, é de fato a verdadeira Jodie Foster. A premiada atriz é uma grande amiga do diretor de elenco da Fox, Randy Stone, e ardorosa fã de Arquivo X. Na verdade, era a pessoa em quem Stone estava pensando quando fez os testes com diversas atrizes para o papel de Scully, em 1993.

Quando Stone telefonou e pediu que fizesse o papel, Jodie concordou imediatamente. Trabalhando com os estarrecidos Morgan e Wong, ela gravou todas as falas num estúdio de gravação em menos de uma hora, e voltou a trabalhar com Robert Zemeckis em Contato.

O único problema, explica Stone, é que sua amiga não estava disponível para gravar qualquer das versões do episódio em línguas estrangeiras.

- Ela fala francês perfeitamente - diz Stone. - E teria sido ótimo se pudesse gravar nesse idioma.

Notas sociais dos bastidores:

Quando Gillian Anderson ficou sabendo do revolucionário enredo de Nunca Mais, ela fez o incomum pedido de participar da escolha do ator convidado.

- Eu perguntei: "Seria possível eu dar uma olhadinha antes no homem que vocês estão pensando em contratar para o papel de alguém que vai enfiar a língua na minha garganta?" - diz Anderson. E ela acrescenta: - Eles concordaram, de maneira que me mandaram uma foto da pessoa que estavam pensando em contratar. Aí eu disse: "Não sei. Este não me agrada muito. Poderiam me mandar algumas tomadas deste cara em fita de vídeo?". Eles mandaram e eu olhei, e ficamos nesse vai-e-vem. Acontece que o papel tinha sido escrito para ele, e os produtores já o haviam escolhido; e ele foi perfeito. Realmente conseguiu sair-se bem, de diversas maneiras. - Sorrindo, a atriz termina: - Na verdade, já faz seis meses que estamos juntos.

Quando este livro (Bastidores 3) foi para o prelo, Anderson e Rodney Rowland, antigo astro de Comando Espacial (Space: Above and Beyond) ainda estavam namorando.

* Segundo o diretor de arte Gary Allen, o incinerador do porão que Ed usa para dar fim às suas vítimas é o terceiro incinerador projetado e construído para a série. Os dois primeiros apareceram em Emasculatas: O Vírus da Morte, da 2a. temporada, e em Dinheiro Infernal, da 3a. temporada. Um quarto incinerador, uma grande unidade do tipo industrial, seria usado mais tarde nesta mesma temporada, em Não Restou Mais Nada.

* O bar predileto de Ed Jerse chama-se Hard Eight, que é o nome da empresa produtora de Morgan e Wong.

* Os ângulos de câmera e as longas tomadas descendo para trás na escada são uma homenagem proposital ao mesmo tipo de tomada que Alfred Hitchcock fez em Frenesi (Frenzy).