4x14: "LEONARD BETTS" (O HOMEM DO CÂNCER)


Michele Wilkes, uma técnica em emergência médica (EMT), corre com sua ambulância pelas ruas da Philadelphia enquanto seu estimado parceiro, Leonard Betts, atende um homem que está morrendo. Quando a ambulância avança um cruzamento, ela bate em um caminhão. Wilkes sobrevive. mas fica aterrorizada quando descobre o corpo de Betts decapitado perto da ambulância.

Mulder e Scully são trazidos para o caso quando o corpo sem cabeça de Betts desaparece do necrotério do hospital. Scully teoriza que alguém tentou roubar o corpo para vendê-lo a um fornecedor médico sem escrúpulos. Mas quando o vídeo da câmera de segurança mostra uma pessoa não identificada com uma estranha distorção na área da cabeça saindo do hospital, Mulder suspeita que algo estranho esteja acontecendo - talvez o corpo tenha fugido sozinho.

Com a ajuda relutante de Mulder, Scully procura dentro da unidade de dejetos biológicos do hospital pelo corpo desaparecido. Os agentes recuperam a cabeça desaparecida, mas o destino do corpo permanece um mistério. Quando Scully se prepara para fazer uma autópsia na cabeça, os olhos e boca se abrem de repente.

Uma amostra de tecido tirado da cabeça de Betts é analisado por um patologista que determina que Betts tinha câncer, numa quantidade tão grande com a qual nenhum ser humano poderia viver. Mulder supõe que Betts tenha de akguma maneira incorporado o câncer ao seu corpo, e possuía inimagináveis poderes regenerativos - talvez o próximo passo na evolução do Homem. Uma análise de digitais revela que o verdadeiro nome de Betts é Albert Tanner. Os agentes entrevistam a mãe dele, Elaine, que diz que Albert morreu em um acidente automobilístico seis anos antes.

Quando Wilkes está transportando outro paciente, ela reconhece a voz de Betts através de uma transmissão pelo rádio da ambulância. Ela localiza Betts trabalhando como um EMT em outro hospital. Quando os dois se encontram, um triste Betts puxa uma seringa e injeta uma substância letal em Michele. Um guarda de segurança testemunha o assassinato e algema Betts ao seu carro. Betts se livra das algemas ao arrancar seu próprio dedo polegar. Quando o polegar é achado, Mulder acha que ele arrancou por saber que outro cresceria no lugar.

Quando os agentes abrem o porta-malas do carro de Betts, eles descobrem sacos plásticos cheios de tumores humanos. Mulder diz que Betts está ingerindo os tecidos cancerosos para poder sobreviver. Eles percebem que o carro está registrado no nome da mãe de Albert Tanner.

Fraco e necessitando de sustento, Betts ataca e mata um fumante gordo e barbudo depois que ele saía de um bar. Fortalecido, Betts fica então hábil para "dar a luz" a uma duplicata de si mesmo.

Os agentes descobrem uma chave de um armazém na casa da sra. Tanner. Quando eles abrem a porta do armazém, eles acham o corpo do homem fumante, sem seu pulmão esquerdo. De repente, de dentro do armazém, um carro aparece, e Betts tenta atropelar Mulder e Scully. Os agentes saem do caminho e abrem fogo. O carro explode, incinerando Betts.

Enquanto Mulder está convencido de que alguma outra coisa esteja acontecendo, Scully lembra seu parceiro de que Betts está inteiramente morto e não vai ressuscitar, e que o caso está encerrado. Mesmo assim, Mulder exuma o corpo do homem que a sra. Tanner disse que tinha sido morto em um acidente automobilístico. Dentro do caixão está um cadáver idêntico a Betts. Mulder conclui o terrível acidente foi uma artimanha, e que o verdadeiro Betts ainda está vivo.

Os agentes vigiam a casa da sra. Tanner esperando a volta de Betts. Quando uma ambulância chega na cena, Mulder e Scully correm para dentro da casa. Eles acham a sra. Tanner, ainda viva, com uma recente incisão cirúrgica no seu peito. Mulder procura pela vizinhança enquanto Scully acompanha a sra. Tanner ao hospital, mas quando a ambulância para no estacionamento do hospital, ela percebe que Betts pegou uma carona se escondendo no teto do veículo. Betts pula para dentro da ambulância e fecha as portas atrás dele. Manejando um bisturi, ele diz a Scully que ela tem "uma coisa que ele precisa". Começa uma luta entre os dois, e Scully mata Betts dando um violento choque elétrico. Mais tarde naquela noite, enquanto Scully está em sua cama, ela acorda tossindo e acha algumas gotas de sangue no seu travesseiro. Enquanto o seu nariz continua a sangrar, ela lembra as assombrosas palavras de Betts.

 

Bastidores

 

A transmissão pela TV da finalíssima do campeonato anual de futebol americano, o Super Bowl, é feita em rodízio entre as três redes nacionais que transmitem os jogos da NFL. A cada dois anos, mais ou menos, uma dessas redes tenta melhorar a audiência de alguma de suas séries mais novas (lembra-se de Esquadrão Classe A? De MacGruder & Loud? De Davis Rules?), programando a sua apresentação diretamente depois da final do campeonato. Em 1997, os chefões da Fox conseguiram resistir a essa tentação, e ganharam uma audiência para o seu programa mais assistido, que somou quase duas vezes o total somado normalmente. Quase 30 milhões de americanos assistiram a este importantíssimo episódio de Arquivo X.

- Foi semelhante a um bom episódio de primeiro ano - diz o editor de roteiros John Shiban. - O episódio tem humor, vimos um bom vai-e-vem entre Mulder e Scully, e alguns efeitos visuais muito bem-feitos. O episódio é assustador e teve até um pouco de ciência por trás.

Também foi o episódio em que o produtor "deu" o câncer a Scully, uma decisão que afetaria todo o restante da quarta temporada. A partir de 4x14, todos os episódios, mesmo que fossem escritos de maneira a tirar a condição de Scully da mente do público, teriam de lidar com esse fator em particular.

- Foi uma idéia que eu havia sugerido no verão passado, mas acabamos interrompendo a discussão - diz o co-produtor Frank Spotnitz. A idéia permaneceu no ar até que, com a quarta temporada já em fase adiantada de produção, ele e Shiban decidiram escrever juntos um episódio. - Sempre fomos bons amigos e tínhamos trabalhado bastante juntos no ano anterior.

A semente para O Homem do Câncer fora plantada algum tempo antes. Spotnitz explica que John Shiban tinha lido um artigo em uma revista tipo Nova Era, sobre o conceito quase científico de "avançados" seres humanos que deram um salto evolucionário à frente do restante da humanidade, adquirindo assim estranhos poderes e habilidades que seriam úteis no futuro, mas que são estranhos e assustadores nos dias atuais.

- Assim - acrescenta Spotnitz -, juntos nós encontramos uma forma de aproveitar a idéia. Primeiro, observamos que o câncer era uma das maiores ameaças contra a humanidade atualmente. Assim, um grande salto para a evolução seria alguém não apenas imune ao câncer, mas que se alimentava dele. Foi Shiban quem percebeu que o enredo ainda embrionário seria a "entrada perfeita" para o tema do câncer de Scully.

- Naquele momento - diz o editor de roteiros -, eu percebi que seria melhor conversar com Chris. E ele aceitou totalmente a idéia, dizendo que era o momento que estava esperando.

- Na verdade - diz Chris Carter -, eu sabia que esta era uma grande oportunidade para provocar mais o público, para fazer as pessoas pensarem. Mas sinceramente pensei que perderíamos algum público, e que nem todos entenderiam. Mas eles entenderam, e entenderam bastante bem.

Vince Gilligan, o terceiro membro do trio de roteiristas de O Homem do Câncer, foi o responsável pela criação do personagem de Leonard, tornando-o uma pessoa simpática que matava, não por vingança ou ódio, mas pela sua própria sobrevivência.

Para desempenhar esse complicado papel eles escolheram Paul McCrane, que é ator desde a adolescência e conseguiu fazer com sucesso a transição para a carreira de ator adulto em projetos como Robocop ("Eu era o cara que acaba no depósito de lixo tóxico", diz ele), e o elogiado drama policial Under Suspicion, produzido em 1996 pela CBS. Ele também ganhou um papel bem representativo na 3a. temporada da série ER (Plantão Médico), como o dr. Romano.

Para ser transformado em um enfermeiro de ambulância magro e calvo, McCrane praticamente não precisou fazer nada. Mas a interpretação do restante do papel, no entanto, foi bem diferente.

Preparando-se para as cenas de sua transformação, ele teve de passar várias horas na maquiagem para instalação de seus acessórios de plástico. Para mostrar sua própria cabeça decapitada na cena da autópsia, ele teve de enfiar-se por um buraco bastante estreito na mesa de autópsia de Scully, e ficar totalmente imóvel durante a filmagem.

Os olhos opacos e vidrados da "nova" cabeça foram criados com o uso de lentes de contato que, em determinado momento, foram colocadas ao contrário, causando muita dor. Durante as cenas da banheira, ele teve de permanecer imóvel por bastante tempo embaixo d'água, com o corpo coberto com uma pasta especial, destinada a impedir que o líquido colorido misturado à água não manchasse sua pele e prejudicasse as filmagens do restante da semana.

A Academia de Artes e Ciências da Televisão indicou Toby Lindala e Laverne Basham para o prêmio Emmy, pelo seu trabalho neste episódio. Naturalmente, foi Lindala quem criou a ilusão de efeito especial em que a nova cabeça de Leonard aparece por trás da cabeça antiga.

A realização deste projeto foi mais complicada do que ele imaginava a princípio. Na seqüência acabada, breves tomadas de McCrane totalmente coberto de maquiagem especial são intercaladas com um boneco da metade superior do corpo do ator, equipado com a boca e os olhos movidos a motor. Quando Lindala tentou tirar a nova cabeça de Leonard pela boca do boneco, descobriu que as peças de espuma e poliuretano que ele tinha utilizado antes não dariam o resultado desejado.

- Então, experimentamos com um novo produto de uma companhia chamada Circle K Silicone - explica Lindala. - Eles o chamavam de série "XP". O novo material ficou bom. Mas uma semana depois de iniciado o projeto, explica Lindala, ele descobriu o que "XP" queria dizer.

- Era um produto "experimental". Em outras palavras, o fabricante ainda não havia terminado os testes com o produto, e não sabia o que a substância poderia fazer. Ainda estavam pesquisando a fórmula - diz Lindala, com os olhos arregalados diante do pensamento assustador. - A cada dia eles nos mandavam um novo pote, com a fórmula ligeiramente modificada. E diziam: "Depois que vocês experimentarem, liguem para nos dizer o que aconteceu".

* Apesar da calma explicação de Scully de que o fatiamento de corpos mortos para transformá-los em algo parecido com fatias de presunto é uma técnica aceita nos laboratórios de autópsias, a máquina de cortar que o patologista usa para fatiar a cabeça decapitada de Betts foi idealizada, projetada e construída pelo mestre de contra-regra Ken Hawryliw. Seu departamento também inventou a interessante máquina de raios X Kirlian, do dr. Charles Burks.

* O corpo docente da famosa Escola de Música Berklee, de Boston, ficou tão impressionada com o trabalho de Mark Snow em O Homem do Câncer que, quando ele aceitou o convite para proferir palestra sobre técnicas de produção de trilhas sonoras para cinema, os professores lhe pediram que se concentrasse nas aparentemente intermináveis mudanças de atmosfera e ritmo que ele conseguiu realizar na cena de abertura do episódio.

* Bill Dow fez o papel de dr. Burks em um episódio anterior, Os Calusari, da 2a. temporada, onde sua análise fotográfica de Charlie Holvey mostrava um gêmeo espectral.