4x15: "MEMENTO MORI" (LEMBRANÇAS FINAIS)


Scully mostra para Mulder uma radiografia que indica que uma massa cancerosa foi descoberta na parede próximo ao seu cérebro. O tumor é inoperável e está crescendo, e as chances de sobrevivência são pequenas. Em vez de pedir licença, Scully opta seguir em outra investigação: contactar um grupo de mulheres supostamente abduzidas que tiveram sintomas semelhantes depois de remover o implante da base de seus pescoços.

Os agentes viajam para a casa de Betsy Hagopian em Allentown, Pennsylvania, onde Scully tinha conhecido as mulheres. Um membro informa que Hagopian (uma das mulheres abduzidas) faleceu há duas semanas. Enquanto procuram pela casa de Hagopian, os agentes percebem que alguém está carregando arquivos do computador via modem. A chamada é localizada, e os agentes descobrem Kurt Crawford, o homem que carregou os arquivos. Crawford explica que ele e Hagopian eram membros da mesma rede UFO, e ele carregou os arquivos de Hagopian pois o governo ia destruí-los. Crawford também revela que todas mulheres que afirmaram terem sido abduzidas por alienígenas morreram de tumores semelhantes, com a exceção de Penny Northern, que está hospitalizada e prestes a morrer de câncer.

Scully visita Northern no hospital, e ela revela que o dr. Scanlon vem tratando seu câncer e que ele pode ter isolado a causa. Vendo seu próprio futuro nas condições de Penny, Scully faz um check-up e o dr. Scanlon começa a tratar o seu câncer. Enquanto isso, Mulder e Crawford procuram arquivos no porão de Hagopian. Eles descobrem que todas as mulheres abduzidas incluindo Northern estão se tratando na mesma clínica de fertilidade na Pennsylvania. Scully pede para Mulder levar seus pertences para o hospital. Mulder deixa Crawford no porão para atender Scully. Depois daquela noite, o Homem de Cabelos Grisalhos (o mesmo homem que matou X) aparece e mata Crawford cujo corpo derrete em uma poça de líquido verde.

Enquanto isso Mulder arromba uma clínica de fertilidade federalmente subsidiada onde todas as mulheres da rede de OVNIs eram pacientes. Dentro da clínica, ele descobre Kurt Crawford (Mulder não sabe que Crawford morreu). Eles têm acesso ao terminal de computadores e carregam um diretório que contém o nome de Scully. Depois Mulder pede para Skinner conseguir um encontro com o Canceroso. Mas Skinner se recusa, insistindo que o Canceroso só negociará mentiras. No entanto Skinner secretamente pede ajuda para o Canceroso.

Mulder se encontra com os Pistoleiros Solitários, e eles falam que a clínica de fertilidade é mantida para fins de pesquisa de alta segurança federal. O grupo se infiltra com facilidade na clínica. Mulder percebe que o dr. Scanlon está no comando. Ele instrui Byers para achar Scully e parar com o tratamento imediatamente. Enquanto anda pelos corredores do edifício, Mulder encontra vários Crawfords e percebe que Kurt é um clone. Ele encontra vários deles vestidos como médicos dentro de uma sala de incubação que está cheia de tanques contendo formas humanas, incluindo sua irmã Samantha. Um dos Kurts mostra para Mulder uma sala refrigerada que contêm frascos com óvulos humanos, inclusive um frasco com o nome de Scully. Os óvulos foram colhidos durante a abdução e depois seriam usados para reprodução. Mulder percebe que as mulheres são as mães dos Kurts e dos clones, e estão trabalhando para salvar a vida de suas mães.

O Homem de Cabelos Grisalhos chega na clínica e prende Mulder entre duas portas de segurança em uma ala de quarentena. O Homem de Cabelos Grisalhos abre fogo e quebra lentamente o vidro que está entre ele e sua presa. Trabalhando febrilmente, Frohike quebra o código do computador de um lugar distante e permite Mulder abrir a porta externa e correr a segurança.

Quando Mulder volta ao hospital, ele acha Scully na cama de Penny. Byers chegou a tempo para parar o tratamento de Scully, mas Northern tinha morrido e o dr. Scanlon fugiu. Scully fala para seu parceiro que ela decidiu lutar contra a doença e continuar seu trabalho.

 

Bastidores

 

Pode-se perfeitamente dizer que Lembranças Finais, apresentado à academia de televisão como representante do Arquivo X no concurso do prêmio Emmy daquele ano, é o melhor episódio da quarta temporada. E também pode-se dizer que este episódio é uma expressão quase pura das qualidades que colocam a série em destaque em relação às demais. A discussão está aberta.

- No começo do quarto ano de produção nós decidimos dar o câncer a Scully - diz Chris Carter. - Eu tinha falado a respeito disso com Gillian no ano passado, quando estávamos discutindo a possibilidade de sua mãe contrair a doença. Brincamos com essa idéia porque o câncer oferece uma interessante plataforma, a partir da qual podemos discutir muitas coisas diferentes: a fé, a ciência, a assistência de saúde, e também um certo elemento paranormal, a luz no fim do longo túnel, a ida e a volta, e tudo mais. Além disso, todo o tema do câncer nos leva com bastante força para o quinto ano. Ajuda-nos a unir muitas coisas no episódio de duas partes que dá início à temporada. Tudo poderá ser desenvolvido de um modo bastante interessante.

Carter acrescenta que percebeu imediatamente que a doença de Scully fatalmente levaria a agente e Mulder a se afastarem um pouco de suas crenças, na busca pelas respostas, pressionando deste modo o seu relacionamento e levando-os para perto do rompimento. Isso foi considerado bom. Também chegou-se à conclusão de que a horrível doença de Scully permitiria aos roteiristas explorar a situação e tirar proveito da piedade do público para com os personagens, ao mesmo tempo permitindo a eles muitos abraços sentimentais. Mas isso foi considerado bastante ruim.

- Eu não escrevo roteiros sentimentais - diz Carter, rindo. - Sempre me disseram que tenho de dar ao público esse momento, porque o público espera por ele. Mas procuro me manter afastado sempre que posso. Veja o que acontece em Lembranças Finais: Scully escreve para Mulder no seu diário mas, quando ele visita o hospital, os dois não discutem sobre o que foi escrito ali. Acho que o relacionamento entre eles não é definido pelo que é dito, mas pelo que não é dito. Mas está mais do que claro que eles amam um ao outro, à sua própria maneira. E esse é o melhor tipo de amor. É incondicional. Não se baseia em atração física, mas na paixão compartilhada pela vida e pela busca de cada um. Eles são heróis românticos, mas heróis românticos na tradição literária.

Há muito sintonizados com a sensibilidade de Carter e com o modo como eles se mostram nos respectivos personagens, os atores principais não precisaram de muita direção para conseguirem arrematar o comportamento dramático apropriado.

- Claro que Scully tem medo da doença - diz Gillian Anderson. - Mas o medo não é uma boa emoção para ser constantemente interpretada. Só posso ir até um determinado ponto, antes de a coisa chegar ao ridículo. E acho que isso é útil, porque me informa que Scully está tentando evitar o ridículo de algum modo. Ela não quer tratar disso, enquanto a coisa não se manifesta. É claro que algumas vezes ela fica com medo. Eu tenho de pensar nas coisas que vou perder, mas tenho de me concentrar no que está bem na minha frente, tomando as decisões na minha vida de maneira que, se eu tiver de morrer, estarei sentindo que, enquanto estive aqui, realizei alguma coisa. David Duchovny fala:

- Quando este roteiro foi entregue a mim, eu pensei que teríamos chance de produzir uma nova dimensão, que não era simbólica nem típica de um relacionamento ideal. Eu pensei: "Não quero que Mulder faça o papel do pequeno soldado heróico". A verdade é que, quando nos ofendemos, estamos ofendendo a todo o mundo. Também não queria fazer o papel como alguém que deve ir para casa e descansar, que é típico nas novelas. Eu queria mostrar a verdade de um bom relacionamento humano, que compreende o fato de que as pessoas ficam irritadas umas com as outras, mesmo quando estão morrendo. Especialmente quando estão morrendo. Então, eu disse aos roteiristas: "Se há uma coisa que eu posso fazer aqui, por favor me deixe ser o mais antipático e irritante com ela, porque é isso que as pessoas fazem normalmente. Elas vão contra seus próprios instintos. Nem todo o mundo age como um príncipe, numa situação como essa".

Por mais ambicioso que fosse em muitos outros aspectos, Lembranças Finais foi um episódio típico como quase qualquer outro da série Arquivo X, no fato de muitas pessoas envolvidas na sua produção terem tido breves momentos de inspiração e longos períodos de luta e frustração. Antes de decidir que tipo de câncer Scully deveria ter, o co-roteirista Frank Spotnitz consultou seu irmão Seth Spotnitz, que é neurologista, e determinou que um tumor nasofaringiano, embora impossível de operar e virtualmente impossível de tratar, não afetaria a resistência de Scully nem sua aparência, senão no estágio final da doença.

A primeira sinopse do roteiro, escrita principalmente por Spotnitz, Vince Gilligan e John Shiban, sofreu drásticas mudanças nas mãos de Chris Carter. A primeira montagem do episódio ficou longa, tão longa que um desempenho bastante emocional do ator Pat Skipper, que fez o papel de Bill Scully Jr., irmão de Scully, foi completamente cortado (no entanto, Skipper aparece pela primeira vez em A Maior das Mentiras, o episódio final da temporada).

Para criar o depósito de óvulos ao estilo de Orwell, que tem um papel tão importante neste episódio, o diretor de arte Graeme Murray foi muito além das fronteiras convencionais de cenografia para uma série de TV. Por exemplo, as unidades de refrigeração não são de madeira compensada pintada: são gabinetes especialmente projetados e construídos em aço inoxidável e alumínio. Todo o departamento de arte trabalhou freneticamente para projetar os mínimos detalhes das gavetas e dos pegadores.

- Foi um exagero, uma loucura! - diz outro membro da equipe de produção, que obviamente pediu para não ser identificado. Pelos seus esforços, Murray, o diretor de arte Gary Allen, e a cenógrafa Shirley Inget ganharam o prêmio Emmy naquele ano por Melhor Direção de Arte em uma série.

Fim da discussão.

* Mulder usa a palavra Vegreville como senha para entrar nos registros do computador do consultório médico. A verdadeira cidade de Vegreville, em Alberta, Canadá, realiza anualmente um festival que é uma atração turística bem ao estilo do tema do episódio: o Ovo de Páscoa gigante.

* A data na gaveta que contém os óvulos de Scully é 29 de novembro de 1994, data em que ela foi levada ao hospital, em Por Um Fio, episódio da 2a. temporada.